Os cardos do deserto e a árvore plantada à beira d’água

Na Primeira Leitura, o profeta Jeremias trata da confiança em Deus. Tenhamos em mente duas imagens: o cardo do deserto e a árvore plantada à beira da água. A princípio, o profeta Jeremias diz: “Maldito o homem que confia no homem e faz consistir sua força na carne humana, enquanto o seu coração se afasta do Senhor” (Jr 17,5), ou seja, quanto mais se coloca a confiança em si, nos outros, e nas coisas, mais se afasta de Deus.

Devemos saber o verdadeiro sentido das frases bíblicas, seu contexto, sua verdade. Não devemos utilizar as verdades da bíblia aleatoriamente sem entender seu verdadeiro sentido, conceito e mensagem. Essa leitura chama-se de “máximas sapienciais”, ou seja, são conselhos de sabedoria. Como um pai, Deus aconselha os seus filhos.

Tais máximas não servem para desanimar. Os que se sentem desanimados com a Palavra de Deus é porque não a acolheu. Jeremias pronuncia essas máximas numa época em que o rei desenvolveu uma política de alianças aventureiras com potências estrangeiras. O rei correu o risco de por o povo de Deus nas mãos das potências. Jeremias apresenta-se para denunciar tais alianças, ele se refere ao rei como aquele que confiou muito mais nas alianças do que na aliança que Deus fizera.

O profeta ataca a política que foi posta no lugar de Deus. Para Jeremias isso é infidelidade à Aliança que Deus fizera. A confiança que não é depositada em Deus, mas nos homens, na força humana. O Rei foi infiel ao colocar o povo à mercê de suas alianças interesseiras. Atenção que jamais podemos dizer que não se deve nunca confiar naqueles que nos rodeiam, mas trata-se de denunciar a autossuficiência de uma humanidade que diz não precisar de Deus.

Por isso, Jeremias diz que tais homens são como os cardos do deserto. São plantas espinhosas que nascem em terras amaldiçoadas e salobras, que quando se reproduzem, suas sementes são espalhadas pelo vento, atingindo e envenenando as outras plantações. Assim, Jeremias compara os homens que não confiam em Deus com cardos no deserto, pois não percebem os estragos que estão fazendo em suas vidas e na vida dos outros, quando a semente de sua incredulidade se espalha e contamina os outros.

Ao contrário, bendito o homem que confia no Senhor, pois diferente dos cardos, “é como a árvore plantada junto às águas, que estende as raízes em busca de umidade”, essa raiz é a nossa fé, que busca a fonte de alimento: a Palavra do Senhor e a Santa Eucaristia.  Esta árvore não teme a chegada do calor, pois sabe onde está a fonte que alimenta, faz crescer e ser firme. Ela não vive meramente no tempo cronológico, ela está no mundo, mas alimenta suas raízes no kairós, na graça de Deus, na fonte da vida eterna.

São Paulo fala daqueles que não confiam em Deus, e pior ainda, não acreditam em sua Ressurreição. Se Ele não tivesse ressuscitado, então a fé não teria nenhum valor; logo, a árvore não alimentaria as suas raízes. A fé em Cristo ressuscitado deságua na confiança e na esperança em Deus, e na esperança e confiança que nós também ressuscitaremos para a vida eterna.

Se não acreditamos na Ressurreição, então em quem confiar e esperar? Essa Ressurreição não deve ser entendida cronologicamente, mas é princípio constante que gera vida em nós. Sentido de confiança e esperança, que mesmo diante do calor e da seca sabemos que tem água por perto, e que podemos estender nossas raízes e procurá-la. A água é Deus e sua Ressurreição. A árvore sem água morre.

No Evangelho, quando o Senhor diz “bem-aventurado”, Ele afirma: feliz é você. O que nos traz felicidade?

As bem-aventuranças não são coisas, fama ou fortuna, mas a verdadeira felicidade. E Jesus nos ensina que ser feliz é fazer como faz o mestre. A felicidade não está encerrada neste tempo. Por isso, Ele diz: hoje choras, mas amanhã alegrarás. O que alimenta a árvore? O que alimenta a vida é a água, a Palavra, as coisas de Deus. Feliz aquele que bebe da fonte de Deus, porque Ele é fonte inesgotável. Sem Ele nós secaríamos. Por isso, precisamos continuamente de Deus. De tal modo, devemos também ser fonte para os outros, pois nós temos uma razão para existir. Esta razão é adorar, amar, esperar, e confiar em Deus, ajudando os outros a se aproximarem da fonte.

Ai daquele que ao invés de ajudar o outro, não o faz e não deixa que o façam. Ai daqueles cardos que se saciam de seus lodos e venenos em fartura; daqueles que riem porque se ergueram explorando os outros; daqueles que anseiam por elogios e aplausos. Estes já têm sua consolação.

A proposta das bem-aventuranças é muito desafiadora e exigente, mas é para todos. Por isso, para vivê-la é preciso mergulhar na fonte da água viva. Esse mergulho exige esforço diário, sobretudo quando vier o calor do deserto, as dificuldades e tempestades, ou lama das explorações e interesses alheios. Mas, independente do que vier, tenhamos confiança e esperança em Deus. Quem confia em Deus já é feliz; perseverando será definitivamente feliz, alimentado a sua fé, como as raízes na fonte.

Liturgia da Palavra
Primeira Leitura (Jr 17,5-8)
Responsório (Sl 1)
Segunda Leitura (1Cor 15,12.16-20)
Evangelho (Lc 6,17.20-26)

Homília por Padre Reginaldo Albuquerque
Síntese por Henrik Cecílio/Pascom

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