Convite exigente: viver a regra de ouro

A Liturgia é um convite para superar a lógica da violência pela lógica do amor total e sem limites. Não se trata do amor humano, mesquinho; mas do amor agápico, do qual todos fazem parte. E para que isso aconteça, Deus dá sua Lei e sua Palavra para ensinar. Diante dos fatos e do contexto, uma mensagem teológica é extraída da liturgia.

O que Deus quer falar diante disso? A Liturgia diz que não há vida isolada, pois todos fazem parte de uma grande rede, de uma grande teia. Nessa rede de convivência, constroem-se relações. E essas redes lembram as redes sociais online: aqueles que entram nelas estão em busca de relações de convivência.

O Livro de Samuel mostra a justiça e a lealdade, duas características de Deus. Deus é justo e leal, e assim como seu amor, sua lealdade e justiça não têm limites. Em um mundo repleto de guerra e violência, os cristãos são primeiramente chamados para dar testemunho de justiça e lealdade, em prol da urgência na construção da cultura do diálogo e da paz.

Davi tem a oportunidade de eliminar Saul, seu adversário e inimigo. Abisai diz a ele: “Deus entregou hoje em tuas mãos o teu inimigo”. E Davi responde: “Não o mates pois quem poderia estender a mão contra um ungido do Senhor e ficar impune?” (1Sm 26,8-9). Os dois foram ungidos por Deus, e a Sua Lei diz para não matar, isso demonstra que a vida deve ser preservada e cuidada em todos os aspectos.

Quais atitudes Deus espera das pessoas a partir de sua Palavra? Ele espera uma atitude de vida e não de morte e violência, ou seja, perdoar os inimigos e adversários. O que fazer diante da oportunidade de vingança? Aproveitar a oportunidade para pagar mal com o mal, ou abaixar as armas porque ambos são ungidos pelo Senhor?

O texto sagrado apresenta duas atitudes para lidar com aqueles que fazem o mal. A primeira atitude é agressiva, ou seja, pagar com a mesma moeda: calúnia com calúnia, ou pior, a ponto de eliminar a vida física. Essa foi a atitude de Abisai proposta a Davi. A segunda atitude é a de quem recusa a teia da violência, e se propõe a romper com a lógica do mal. A “regra de ouro” consiste em quebrar a espiral de violência. Essa foi a atitude do rei Davi, que é apresentado como modelo da pessoa boa que pode vingar-se, mas não faz, pois ele sabe que a vida do outro é sagrada e inviolável.

Naquele tempo já se pensava assim. Desde o princípio Deus já ensinava que a vida é preciosa. Que o perdão é a única saída para a violência, que o outro pertence a Deus, e uma vez de Deus, somente Ele tem o poder de decidir sobre a vida. Isso é base para o que a Igreja defende: inviolabilidade da vida humana. Abisai e Davi, e no meio dos dois está Saul. No meio do bem e do mal, de quem se deixa levar ou pela violência ou pelo perdão.

Diante de tantos escândalos é melhor rezar por todos sem julgar ser bons ou maus, e dizer como o salmista: “O Senhor é bondoso e compassivo. Bendize, ó minh’alma ao Senhor.” (Sl 102). E pedir que Deus tenha piedade de todos, para que todos possam experimentar a sua misericórdia, não somente alguns; e que experimentando a sua misericórdia haja conversão.

Convertam-se em pessoas espirituais, diz são Paulo. Ou seja, cheias do bem, e não do mal, não envenenadas. Que mesmo tendo saído da terra, como Adão, transformem-se em pessoas do Céu, sejam modelo de pessoas celestes. Um esforço muito exigente para quem vive fincado na terra, para quem não acredita no Céu e não o almeja, para quem está encerrando sua vida neste mundo material. Quem são essas pessoas do Céu? São aqueles que nasceram da água e do espírito, os batizados que receberam novo sopro de vida, os seguidores de Cristo, que escutam a sua voz, a voz do bem, do amor e do perdão, que não se deixam levar pela voz da violência, das guerras, do ódio. São os que experimentaram o Ressuscitado.

São Paulo continua: “como trouxemos em nós o homem terreno, procuremos também trazer, deixar sobressair, a imagem do homem celeste” (1Cor 48). São duas imagens: quem é sempre Davi ou Abisai? Todos trazem essas duas imagens, mas é preciso procurar, se esforçar, para que sobressaia a imagem de Davi, da pessoa espiritual celeste. E isso é por toda a vida, assim como os santos fizeram. Qual pessoa que não vive essa luta do bem contra o mal a vida inteira? Por isso, São Paulo também diz: “Não faço o bem que quero, e sim o mal que não quero” (Rm 7,19), porém me esforço para fazer o bem, e o meu esforço me leva à graça, porque “onde abundou o pecado superabundou a graça” (Rm 5,20).

Jesus começa o Evangelho dizendo “a vós que me escutais”, ou seja, àqueles que estão abertos para à Palavra, para acolher a regra de ouro da caridade cristã. Ele diz: “o que vós desejais que os outros vos façam, fazei-o também a vós a eles” (Lc 6, 31). É a ética da reciprocidade, desejar e fazer. Significa que não somente excluir o mal, mas fazer o bem para quem pratica o mal, pois como Ele disse “se amais somente aos que vos amam que recompensa tereis?” (Lc 6, 33). As oportunidades para fazer o bem não devem ser desperdiçadas, pois elas treinam para fazer transparecer a pessoa espiritual existente em cada um. O Evangelho é a proposta de ouro para quem quer seguir e perseverar em seu caminho.

Liturgia da Palavra
Primeira leitura (1Sm 26,2.7-9.12-13.22-23)
Salmo (Sl 102)
Segunda Leitura (1Cor 15,45-49)
Evangelho (Lc 6,27-38)

Homilia por Pe. Reginaldo Albuquerque, pároco
Síntese por Henrik Cecílio / Pascom

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