A Palavra de Deus revela a beleza escondida no coração dos homens

Primeira Leitura (Eclo 27,5-8)
Responsório (Sl 91)
Segunda Leitura (1Cor 15,54-58)
Evangelho (Lc 6,39-45)

Nosso coração, por vezes, fica tão repleto dos critérios humanos, culturais, sociais e científicos que os critérios do amor de Deus permanecem escondidos. Não se trata de desvalorizar os critérios humanos, mas nem sempre eles são bons. Ao contrário, os critérios de Deus são sempre bons para os seus filhos. Mesmo parecendo duros, exigentes e radicais, eles são para o bem. Cumpre descobrir e redescobri-los no interior. Mas como nem sempre isso é possível, a Palavra de Deus vem para ensinar como revelá-los.

A Leitura do livro do Eclesiástico revela imagens que ajudam a agir como discípulos, que mostram quais são os critérios que devem nortear o modo de ser do povo de Deus. O livro trás a imagem da peneira usada para sacudir, e a imagem do que sobrou depois de peneirar, ou seja, os refugos, aquilo que é inútil. Estes são símbolos do pecado que ferem a consciência e caem no coração. Deixar que as ideias, pensamentos, julgamentos e comportamentos sejam peneirados é um critério necessário para viver como povo de Deus.

Também nos é apresentada a imagem do fogo que prova a qualidade do vaso. Nas mãos de Deus, o ser humano é como o vaso na mão do oleiro, que deve ser provado pelo fogo. Mas como a natureza do homem é frágil, e seus hábitos são melindrosos, o fogo o trincaria com muita facilidade. O medo de ser provado pelo fogo atinge somente aqueles que vivem sob critérios humanos. Logo, o povo que vive sob os critérios de Deus não deve ter medo das provações que vem como fogo.

A última imagem de Eclesiástico é do fruto da árvore cultivada pela Palavra. Pode-se dizer que esta é a Palavra de Deus, pois somente ela pode encher o coração e faz o bem. Os elogios e aquelas palavras que nos fazem sentir “bem” devem ser tratados com cautela. Acima de tudo, os elogios humanos são limitados, tem começo e fim. A Palavra de Deus não, só possui começo, ela não tem fim, ela é eterna e capaz de preencher o coração das pessoas. O que há de melhor e mais belo no coração humano será revelado quando ele estiver cheio da Palavra de Deus.

“O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração. Mas o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro, pois sua boca fala do que o coração está cheio” (Lc 6,45). Isso quer dizer que há muitas coisas boas no coração das pessoas, mas essas coisas só serão reveladas com a acolhida da Palavra de Deus, ou seja, com a acolhida dos critérios de Deus.

Os critérios de Deus são aqueles que levam à Vida, à Ressurreição, por outro lado, os critérios meramente humanos, quando não iluminados pela luz de Deus, podem levar à morte. São Paulo trata da ressurreição na primeira carta aos Coríntios. Ele diz que o esforço para seguir os critérios de Deus revestirá, pouco a pouco, o homem de incorruptibilidade e imortalidade. Mas isto é, sobretudo, um crescimento espiritual. Crescimento que requer firmeza e perseverança, e cada vez mais empenho na obra do Senhor. São Paulo diz “que vossas fadigas não são em vão no Senhor” (1Cor 15,58), esforçando-se para viver o Evangelho no mundo todo, ser cristão em toda parte.

O Evangelho dispõe os critérios do verdadeiro Mestre, e também do falso, daquilo que é de Deus e do que não é. O verdadeiro Mestre é aquele que testemunha e que se deixa formar pela Verdade, pelos critérios de Deus. Jesus fala do discípulo e do mestre, daquele que sempre terá o que aprender para ser como o mestre, ou seja, ser como o próprio Mestre, Cristo Jesus. É preciso entender que ser como o mestre não é ser o mestre, pois o filho pode parecer muito com o pai, mas sempre será o filho; os critérios do pai sempre irão guiar os passos do filho, pois, o pai ama o filho.

Primeiramente, Jesus apresenta a imagem dos dois cegos, falando de uma cegueira física, mas representando uma mensagem teológica: aquele que não se deixa iluminar pela Palavra de Deus não poderá guiar o outro, ou seja, a Palavra é o critério do caminho seguro. Nosso Senhor fala do cisco e da trave nos olhos impedindo a visão, fala do discípulo que deve olhar para si mesmo, que decide crescer e cuidar de si antes de cuidar do outro. Caso o outro não aceite ajuda e prefira seguir seus critérios, o discípulo, por outro lado, decide-se por Deus, que quer mudar, ir além. Jesus também recorda a árvore plantada na beira da fonte e dos frutos que ela dará: se ela se alimenta da fonte de Deus seus frutos serão bons, ao contrário, se não se alimenta e se contamina, ela dará frutos maus.

Enfim, Jesus apresenta a última imagem deste Evangelho: o coração como um tesouro. Se esse tesouro foi formado pelas coisas de Deus, então ele falará dos critérios de Deus. Com quais critérios o povo de Deus deve viver? Esta liturgia que antecede a quaresma convida a uma reflexão interior. O tempo quaresmal que se aproxima é propício para converter o coração, para que ele se encha cada vez mais dos critérios do amor, da ética, da moral, dos critérios da Palavra de Deus. Tempo para deixar-se ser formado por Deus, que quer instruir Seu povo através de sua Santa Igreja.

Homilia por Pe. Reginaldo Albuquerque/Pároco
Síntese por Henrik Cecílio/Pascom

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *