Não deixem que esse tempo favorável passe em vão

Primeira leitura (Jl 2,12-18)
Salmo (Sl 50)
Segunda leitura (2Cor 5,20-6,2)
Evangelho (Mt 6,1-6.16-18)

A oração que dá início à Santa Missa da Quarta-feira de Cinzas faz um pedido a Deus: “Concedei-nos, ó Deus todo-poderoso, iniciar com este dia de jejum o tempo da Quaresma, para que a penitência nos fortaleça no combate contra o espírito do mal”. Há um detalhe na última frase dessa oração feita pela Igreja: “espírito do mal” está escrito de forma minúscula. Na maioria das vezes fala-se de espírito do mal de uma maneira equivocada, remetendo a uma imagem preconcebida de Satanás com chifres e cauda. Na verdade o espírito do mal descrito na oração refere-se também aos critérios que não são de Deus mas estão presentes no coração humano.

Mesmo com o coração repleto de critérios humanos, Deus faz um chamado para que os seus filhos e filhas retornem a Ele. Na leitura do Livro de Joel, o profeta começa dizendo: “voltai para mim com todo vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos” (cf. Jl 2, 12), ou seja, voltar para Deus mostrando quem de fato somos nós. Pois, não adianta voltar e colocar-se diante de Deus como um “santo”, é fundamental reconhecer o pecado. Por isso o profeta diz: “rasgai o coração, e não as vestes” (cf. Jl, 2, 13), isto é, não mostrar a caricatura, mas o verdadeiro estado do coração: cheio de coisas que não são de Deus. Voltar com sinceridade, se preciso for com lágrimas e gemidos dizendo “olha Senhor como sou, olha como estou, olha como voltei, mas preciso de Ti para não continuar assim”. 

O profeta diz: “tocai trombeta em Sião” (cf. Jl 2, 15), esta é a trombeta que anuncia a volta do homem e a chegada do tempo de Deus. Nesta Santa Missa de cinzas, a Igreja também anuncia a chegada do tempo da quaresma, e de forma análoga ao que está escrito no Livro da Profecia de Joel (cf. Jl 2, 15-17), nesse tempo também são necessários alguns exercícios para voltar à Deus. Tais exercícios vividos na quaresma são esmola, jejum e oração. Esses exercícios servem para viver conforme os critérios de Deus e para reconciliar-se com Ele.

No Evangelho, Jesus exorta a respeito da forma certa de praticar os exercícios de esmola, jejum e oração (cf. Mt 6,1-6.16-18). Estes três pilares também são comentados pelo Santo Padre, o Papa Francisco, na sua mensagem para a quaresma de 2019. O Papa diz que a quaresma é o “sinal sacramental da conversão, um chamado aos cristãos para encarnar, de forma mais intensa e concreta, o mistério pascal da sua vida pessoal, familiar e social, particularmente através do jejum, da oração e da esmola”. 

O Santo Padre mostra que o jejum serve para “aprender a modificar nossas atitudes para com os outros e com as criaturas”, e continua: “É passar a tentação de devorar tudo para satisfazer a nossa voracidade, é a capacidade de sofrer por amor que pode preencher o vazio do coração”, afirma o Sumo Pontífice. Segundo, ele diz que a oração é “para saber renunciar a idolatria e a autossuficiência do nosso eu e declarar a necessidade do Senhor e de sua misericórdia”. E por fim ele fala que a esmola serve para “sair da insensatez de viver e acumular tudo para nós mesmos com a ilusão de assegurarmos um futuro que não nos pertence. E, assim, reencontrar a alegria do projeto que Deus colocou na criação e no nosso coração: o projeto de amá-Lo a Ele, aos nossos irmãos e ao mundo inteiro, encontrando neste amor a verdadeira felicidade” conclui Papa Francisco.

O Papa lembra que “a quaresma do Filho de Deus consistiu em entrar no deserto da criação para fazê-la voltar a ser aquele jardim da comunhão com Deus que era antes do pecado das origens (cf. Mc 1,12-13; Is 51,3). Que a nossa Quaresma seja percorrer o mesmo caminho, para levar a esperança de Cristo também à criação, que será libertada da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus (Rm 8, 21)”. 

O Santo Padre termina sua mensagem dizendo: “não deixemos que passe em vão este tempo favorável! Peçamos a Deus que nos ajude a realizar um caminho de verdadeira conversão.” É preciso assumir este tempo propício que o Senhor concedeu para viver o amor verdadeiro que é o amor de Deus. 

Que as palavras do Papa Francisco e a liturgia desta Santa Missa sirvam de reflexão e motivação para que todos vivam intensamente esse tempo que a Igreja propõe. Não deixemos que passe em vão este tempo favorável de perdão e reconciliação. 

Homilia por Pe. Reginaldo Albuquerque / Pároco
Síntese por Henrik Cecílio / Pascom

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