Deus nos acolhe com um abraço de pai

Primeira Leitura (Js 5,9a.10-12)
Salmo (Sl 33)
Segunda Leitura (2Cor 5,17-21)
Evangelho (Lc 15,1-3.11-32)

A liturgia mostra o amor entendido na linha da misericórdia. É o amor observado através da ótica de Deus, o olhar ensinado pelo Filho: o amor misericordioso que conduz todos à comunhão plena com Deus. A comunhão com Deus, uma vez quebrada pelo pecado, é restabelecida pela reconciliação. Neste 4º Domingo da Quaresma, conhecido como domingo da alegria, também vale ressaltar o seguinte questionamento: existem motivos para alegria diante de tantos desastres e do sofrimento do outro? Humanamente não existem motivos para alegria. Mas olhando com a ótica de Deus, olhando com o olhar da fé pode-se notar os motivos da alegria nesta Celebração.

Na Primeira Leitura, “o Senhor disse a Josué: ‘Hoje tirei de cima de vós o opróbrio do Egito’” (Js 5,9a). O opróbrio é a circuncisão física, que agora não é mais necessária, o povo agora deve fazer a circuncisão do coração, ou seja, reconhecer Deus que tirou o povo da escravidão do Egito, e dessa forma somente a Ele servir e adorar. Viver a Páscoa é lembrar-se do que Deus realizou na história de cada um. Dessa maneira, hoje, celebrar a Páscoa do Senhor, ir a Santa Missa, escutar a Palavra de Deus, são atos de gratidão a Deus por tudo que Ele fez. Esse é o motivo da alegria, não por ter conseguido algo meramente humano e passageiro, mas a alegria do Povo de Deus, porque Deus libertou o seu povo e agora todos podem preparar a festa da Páscoa. Só pode festejar a Páscoa quem tem consciência de que Deus o libertou, que somente Deus liberta o homem das mazelas e do pecado.

Na Segunda Leitura da segunda carta de São Paulo aos coríntios, o apóstolo de Cristo destaca a palavra reconciliação. A reconciliação servirá para viver em paz. Por isso, o tempo da Quaresma é um tempo para a reconciliação com Deus, consigo mesmo, com todos os outros, com a sociedade, e com a criação. A oportunidade da reconciliação proposta por Deus é mais um motivo de alegria.

Na leitura do Evangelho, Jesus conta a parábola do filho pródigo por causa da murmuração dos fariseus e dos escribas. Estes observam que Jesus acolhia os pecadores e os publicanos, pois eram eles que escutavam Jesus, ao contrário dos fariseus e dos escribas, que estavam convencidos de que não precisavam das palavras de Jesus. Os fariseus e escribas achavam escandaloso Jesus acolher o povo pecador, comer com eles e estabelecer laços, e justamente pelo acolhimento que Jesus deu aos pecadores eles pensavam que Ele não podia vir de Deus. Então, Jesus conta a parábola do filho pródigo. Nessa parábola estão presentes o pai, o filho mais novo que pede a herança (e pedir a herança antes é desejar morte do pai), e o filho mais velho que é ciumento e cobra atenção do pai. São dois filhos criados no mesmo ambiente, mas com comportamentos completamente diferentes, sobretudo, dois filhos que não conheciam o pai. Talvez porque estavam contaminados como os fariseus e os escribas, e esses filhos irão se surpreender com as atitudes do pai.

O primeiro destaque da parábola é o pai que respeita a liberdade dos seus filhos, e isso é importante, pois muitas vezes as pessoas se perguntam: “por que Deus não impediu que o filho fosse embora para sofrer tanto?”. Porque o Pai respeita a liberdade humana, Ele já sabia de tudo que iria acontecer, mas permite que o filho passe sofrimentos para lhe dar uma lição, para cair o véu, que passando por tudo isso ele iria notar o amor do pai, pois muita gente só conhece Deus a partir da dor. O segundo destaque é o amor inalterado do pai, pois ele ama do mesmo jeito, a atitude do filho não muda o coração do pai. O pai permanece, e isso serviu para a volta do filho, ele pensa: “vou voltar porque pequei, e pedir que ele me trate como escravo”. Mas o pai nem deixa o filho terminar as suas justificativas, ele interrompe o filho, o abraça, e faz festa. Deus não muda; nada do que fizermos vai mudar o coração do Pai. O terceiro destaque é a frustração do filho por ter abandonado a casa, o pai e a família, e esse é o retrato do que acontece com o homem quando ele abandona Deus.

Nessa parábola é apresentada a justiça de Deus, que não muda segundo as concepções humanas, os homens é que devem mudar suas concepções segundo os critérios de Deus. O problema é que muitas vezes é absurdo para o homem a forma como Deus age, a exemplo dos fariseus e escribas escandalizados com as atitudes de Deus. Por isso, o tempo da Quaresma é tempo para rever conceitos e refletir a respeito da própria condição, se como pessoas somos filhos de Deus ou escravos, se nos deixamos abraçar por Deus ou preferimos viver nos vícios e nos pecados. Mas também admitir que muitas vezes as pessoas não têm culpa, pois foram ensinadas a viver assim, por isso é importante tirar a poeira e os mofos da fé, e deixar transparecer quem de fato é Deus, o Único, o Pai amoroso e misericordioso, revelado por Jesus seu Filho Único e Salvador.

O último aspecto em destaque nessa parábola é o abraço do pai no filho. Ao aproximar-se do filho sujo de lama o pai o abraça, ou seja, o pai toma para si todas as impurezas do filho. Por isso que os fariseus ficaram irados, porque o Pai acolhe o Filho, e ao fazer isso Ele abraça e toma para Si todas as dores e impurezas da humanidade. O pai faz isso porque ele tem compaixão e quer libertar o homem e a mulher da escravidão do pecado, do opróbrio do Egito. Jesus mostra que abraçando o filho sujo e impuro, Ele abraça a todos. Este é mais um grande motivo de alegria no dia de hoje: o Pai que nos abraça.

Essa parábola deve ser vivida com o coração, que precisa ser circuncidado, quem não assim fizer continuará distante achando que possui créditos com Deus. O filho mais velho achou que já tinha crédito, mas ele também precisava se reconciliar com o Pai. Pode ser que hoje nos venham lágrimas, por tudo que passamos, mas essas lágrimas são de alegria, lágrimas que lavam a lama do pecado, e essa é a alegria verdadeira que restará, a alegria de retornar à casa do Pai, de saber que Deus Pai, misericordioso, não muda, que Ele nos ama infinitamente.

Homilia do Pe. Reginaldo Albuquerque da Silva/Pároco
Síntese por Henrik Cecílio/Pascom

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